Autora: Gabi R. | Beta-reader:
Capítulo 1

“But boy I'll tell you what the fact is
Is no one else in this room
Looking like you”


E eu estava ali, sentada novamente na cadeira cor de merda da sala da diretora e esperando que ela começasse mais um dos seus discursos. Tudo isso já fazia parte da minha rotina e provavelmente da dela também. Enquanto eu observava os quadros velhos pendurados por toda a sala deixei de notar que a mulher já havia iniciado o seu discurso, suas mãos localizadas uma em cima da outra e pousadas na mesa, pernas cruzadas, olhos de víbora captando até meus míseros movimentos. Tudo já era muito normal e nada que ela fizesse ou dissesse faria diferença pra mim.
— Mais uma vez! Parabéns, é o recorde da intuição. — revirei os olhos e a ouvi continuar sua amostra de raiva sobre mim. — Pelo menos dessa vez você não estava discutindo com um professor.
— Eu estou melhorando querida diretora, seus conselhos estão me ajudando a achar as pessoas certas para discutir, pessoas sem cérebro como a amada da Lisa Hardwicke. — eu disse á provocando.
— A próxima vez que você se meter com a Lisa, aquela pobre coitada, você vai estar na minha lista negra, não pense que vai se safar fácil, não vai ser como das outras vezes.
— Estou esperando pra ver. — sorri.
— Você já pode ir. — ela disse após alguns segundos em silêncio. E pela primeira vez eu vi aquela mulher terminar de dar um de seus sermões sem nenhum grito sequer e em menos de dez minutos.
— Rápido assim? — ela me olhou e sorriu, sim, sorriu.
— Eu tenho que falar com um aluno novo, se você puder sair agora eu vou ficar agradecida. – ela arrumou os óculos e fez sinal para eu ir.
— Entendi, não quer deixar nenhuma má impressão para o aluno novo. O que ele iria pensar de uma diretora dessas não é mesmo? Bom, obrigado por ter poupado os meus ouvidos hoje, certamente eles ficaram muito agradecidos. Agora se você me dá licença, eu vou voltar para minha aula entediante novamente. — falei com o máximo de sarcasmo que consegui. Levantei da cadeira e vi o sorriso da diretora ir embora em um estalo, ela me encarou furiosa e como de costume sai dali batendo a porta. Do lado de fora da sala, em um dos bancos de madeira no corredor, estava um menino de camisa polo azul, ele me olhou por alguns segundos, mas logo já foi chamado para dentro da sala, todos dessa escola precisam passar por lá uma vez na vida, mas pessoas como eu costumam ter que ir lá com uma certa frequência, e digamos que metade das vezes não é de uma forma bem justa.

Sai da sala de aula e fui em direção ao meu armário, depois de uma hora tentando não dormir na aula de biologia e me segurando para não matar aquela ”pobre coitada” que não parava de dizer para seus capachos que estava incrivelmente abalada com o que eu havia dito na aula anterior, eu ia finalmente poder ir para casa e desmaiar. Meus pais estavam viajando em uma segunda lua de mel e meu irmão, , estava passando esses dias na casa do seu melhor amigo, confesso que fiquei com um pouco de raiva por ter que ficar morando esse tempo sozinha e que fiquei chateada com a por não ter me convidado para dormir na casa dela, mas apesar de tudo, eu gostei do silencio, da sala inteira só pra mim, nenhum grito, nenhuma briga, tudo em perfeita tranquilidade.
— Você não tem jeito mesmo. — disse , brotando de algum lugar e quase me matando de susto. – Parece que não estuda aqui há quase doze anos. O pai da Lisa enfia dinheiro nessa escola todo dia, não importa o que você disser, á diretora sempre vai ficar do lado dela. — fiquei um tempo a encarando e tentando descobrir de onde ela havia surgido.
— Você pode me explicar como ficou sabendo da briga? — ela riu e jogou o cabelo para trás. Eu sou um ano mais velho que ela, o que significa que não temos aulas juntas e ela não teria como ter visto a briga entre eu e a Lisa.
— Simples, existe uma coisa chamada celular, as coisas dentro dessa escola estão sempre circulando. – ela disse girando o seu dedo indicador feito uma maluca.
— Então você já deve ter ficado sabendo do menino novo, certo? — ela me olhou confusa e arregalou os olhos.
— Que menino novo ? Ele é bonito? Como assim? Ele vai ser meu colega? Ele...
— Cala a boca. — eu disse segurando seus ombros, ela se acalmou e me encarou — Escuta, eu não sei, ele estava esperando para falar com a diretora e eu dei só uma olhadinha. — ela se aproximou.
— Qual é o seu problema afinal? Como você só deu uma olhadinha? – ela disse tentando imitar a minha voz, o que acabou dando certo.
— É que eu não fico no cio vinte quatro horas por dia como você. — ela riu e deu um suspiro como se dissesse “é verdade” — Agora eu posso ir embora? Eu ‘to morrendo sono.
— O que? Não, nós não vamos sair dessa escola até descobrir se o menino novo é bonito.
— A gente pode descobrir isso amanhã, ele já deve ter ido embora . — ela agarrou minha mão e nós começamos a caminhar em direção à sala da diretora, aquele caminho eu já conhecia. Antes de virarmos no próximo corredor á esquerda, vimos o menino de polo azul indo em direção saída da escola. — O que ele ainda ‘ta fazendo aqui?
— Ai meu deus. — ela falou parando no meio do corredor e botando a mão na minha barriga para eu fazer o mesmo, tirei a mão dela de lá e arrumei minha blusa. — , como você não percebeu? Aquele é o primo do .
— Como você sabe? — perguntei só pelo costume, ela sempre sabe de tudo, é incrível.
— Você não lembra quando ele falou que o primo dele ia vir morar aqui? – balancei a cabeça negativamente. — Duvido que alguma outra pessoa mudaria de escola assim no meio do ano. Deve ser ele. — ela ficou mais um tempo o encarando. — Vamos chegar mais perto, eu ainda quero saber se ele é bonito.
— Nós podemos perguntar isso pro .
— Claro, super normal, a gente pode falar: “Oi , tudo bem? Seu primo é bonito? Qual é o formato da bunda dele?” — rimos e quando viramos para ir em direção ao menino não havia mais ninguém lá. — Não, Não, Não.
— Acho que ele... — antes que eu terminasse a frase agarrou minha mão e começamos a correr feitas duas loucas para fora da escola. Vimos o menino entrar em um carro preto, ela ainda correu um pouco atrás, mas depois percebeu que o menino iria a achar uma retardada e voltou andando para o meu lado tapando o rosto com as mãos.
Depois da nossa grande busca eu voltei pra casa e tentei dormir um pouco, mas logo me ligou avisando que iria dormir na minha casa para podermos achar alguma maneira de encontrar o garoto, ah, e ela disse que iria levar pizza por que sabia que eu estava passando fome e não queria me deixar morrer desse jeito. Exatamente com essas mesmas palavras.

Uma semana depois...
estava dormindo na minha casa dês do dia em que descobrimos do menino novo, a nossa refeição era na maioria das vezes ovo frito, pizza e pão puro, nenhuma de nós estava com vontade de sair para ir no mercado e acho que não estávamos se importando nem um pouco com os quilos a mais. Minha mãe não havia me ligado ainda e o só passava de vez enquanto em casa para pegar roupa ou me xingar um pouco. Normal.
— Você não acha que ‘ta ficando um pouco neurótica com isso? — estávamos sentadas no pátio da minha casa e a estava tentando arrumar um jeito para acharmos o “menino novo que não era novo por que não foi na escola dês do dia em que nós o vimos entrando naquele carro preto”. Ela estava ficando um pouco louca em relação a isso, e não me deixou perguntar nada para o , então nós não sabíamos nada, nem se eles eram primos.
— Relaxa, eu sei o que eu vou fazer, a secretaria da diretora é amiga da minha mãe, ela não iria se incomodar de me falar o nome do menino. Eu posso até ir comprar um presente pra ela dizendo que foi a minha mãe que mandou. O que acha de um bracelete? — e é então que eu me pergunto de onde ela tira essas ideias.
— Eu não acho nada, eu já disse pra você que nós não vamos encontrar ele.
— Cadê sua fé? – eu comecei a rir e ela me olhou séria. — Nós vamos achar ele, eu precinto, acho que ele pode estar mais perto do que imaginamos. — ela encarou o nada e acariciou o queixo como se tivesse uma barba.
— Eu não deveria ter contado pra você sobre o menino novo.
— Sabe o que eu acho? Que se você não tivesse me contado do menino novo nós não teríamos nada pra fazer, e você estaria nesse momento sozinha deitada naquele sofá assistindo uma das suas séries dramáticas e chatas.
— Na verdade isso não seria um problema pra mim...
— Ok, eu tive uma ideia. — ela falou do nada e se levantou, olhei para ela assustada. — O que você ‘ta esperando? Quer eu te carregue? Levanta! – levantei e comecei a segui-la.
— Onde nós estamos indo?
— Comprar um bracelete... Na loja do . — ela deu um sorrisinho maléfico.
— E você teve essa ideia só agora ? Depois de uma semana? Mas que gênia. — ela me mostrou a língua e continuamos caminhando. A loja dos pais do ficavam muito longe, demoramos tanto tempo caminhando que eu me esqueci como era sentir as pernas, estávamos podres. A , apesar de tudo, continuava com um sorriso no rosto enquanto eu só queria poder colocar as mãos no pescoço dela e apertar bastante. Assim que entramos na loja fomos recebidas por um rapaz, ele estava com o uniforme da joalheira e parecia ter a nossa idade, eu estava esperando que o viesse nós atender, (sim, os pais dele o fazem trabalhar lá) mas aquele menino era tão lindo que eu não me importava.
— Nós gostaríamos de ver os braceletes, os mais baratos que tiverem. Obrigada. — respondeu , respirando rápido e nem olhando para cara do rapaz. Ela botou as mãos no joelho e começou a controlar a respiração, contando até dez depois de puxar o ar todo e soltar. Enquanto eu a ouvia contar, fiquei observando o menino ir atrás do balcão e procurar as amostras de braceletes. Eu já falei que ele é lindo?
— Olha quem está aqui, vocês já foram atendidas madames fedidas e suadas? – disse aparecendo de surpresa, coisa que só a costuma fazer. Ele nós abraçou ao mesmo tempo, deixando a cabeça da em um lado do seu ombro e a minha de outro. Ri sem animo, dei alguns tapas nas costas dele e tentei me desgrudar da criatura. — Vocês estão bem? — ele perguntou depois de ver nosso estado.
— Claro, depois de ter andado por quase duas horas sem água e com esses tênis de merda, eu não podia estar melhor. — respondi com um sorriso forçado. — Se a não tivesse me feito vir aqui só pra descobrir se... — ela tapou a minha boca e arregalou os olhos.
— Pra descobrir se os braceletes estão em promoção. — fez uma cara de confuso e começou a rir como se soubesse que estávamos fazendo alguma coisa errada. O menino com os braceletes voltou e se posicionou ao lado do .
— Ah, meninas, esse é meu primo , essas são e . — ele disse botando a mão no ombro do garoto. Eu e nos olhamos e começamos a rir, os dois ficaram nos encarando e provavelmente pensando “o que essas duas retardadas estão fazendo?” e começaram a rir também, só que de um jeito meio sarcástico. — Que engraçado não é mesmo? ‘Ta, do que as malucas estão rindo?
— Eu sabia, eu não falei pra você? — disse e começou a dar alguns pulinhos.
— Eu conheço você! — disse apontando para mim.
— Ah, é mesmo? — falei tentando parecer a pessoa mais normal do mundo.
— Sim, foi você que saiu da sala da diretora toda estressadinha. — ele disse começando a rir, e o acompanharam.
— É, foi ela mesma que você viu. — concordou me abraçando de lado. — Ela é a nossa menina rebelde, não é mesmo ? – mostrei a língua para ele e o tirei de perto de mim.
— Então, você estuda na Patcham também? Eu nunca vi você lá. — perguntei para o menino, o , ah tanto faz.
— Sim, mas eu vou começar só no segundo trimestre, a diretora disse que eu ia ficar perdido se eu começasse do nada. Então o pai do me deixou trabalhar aqui na loja por enquanto.
— Ah, legal. — ele começou a me encarar, fiz o mesmo, ele me encarava, eu o encarava. Já posso morrer?
— È impressão minha ou ‘ta rolando um clima?
— Cala a boca .— eu e gritamos juntos.
— Ok, desculpa, não quis atrapalhar. — ficamos alguns segundos em silencio. — Bom , como eu já atrapalhei mesmo, vocês vão querer o bracelete ou não?
— Eles estão em promoção? — perguntou .
— Hm, não!?
— Então nós não vamos querer. Obrigada. Foi um prazer conhecer você . Tchau. — ela me puxou pela mão e saímos da loja. Quando estávamos quase dobrando a esquina começou a voltar correndo, eu a segui. Ela entrou na loja de novo parecendo uma louca e gritou — Alguma boa alma nos daria uma carona?

— Foi muito legal da sua parte ter nos dado carona Sr. . — agradeci ao pai do e desci do carro, desceu logo atrás.
— Sem problemas. Da próxima vez, não façam escândalo na minha loja.
— Mil desculpas por aquilo. — falei e abanei para o Sr. que respondeu com um sorriso. Vi o carro se afastar e me virei para a .
— Sabe, no final das contas valeu a pena ter caminhado tudo aquilo até a loja dos . — disse e eu concordei com a cabeça.
— No final das contas você não é tão burra assim. — ela me deu um tapa de leve no ombro e entramos na minha casa. — O que a sua mãe acha de você estar dormindo aqui faz uma semana?
— Acha super normal. Ela deve estar muito feliz de ter se livrado de mim por esse tempo. — eu ri.
— Nossa, mas que amor.
— Mas voltando ao assunto do . — ela disse e se jogou no sofá. — Ele até que é bonito.
— Ele é lindo, pode ser até chatinho, mas é lindo.
— Opa, calma. Então você achou ele chato?
— Ele tem cara de chato, gosto de pessoas mais como você é o .
— Ok, pode deixar que eu pego ele pra mim então. — ela pegou o controle da televisão e ficou passando os canais. — Você é tão idiota. — sentei do lado dela no sofá e a encarei.
— É, bem eu que sou a idiota.
— Verdade, o menino lindo querendo o seu corpinho pra ele enquanto você fica chamando ele de chato, pelo amor de deus. Você pelo menos teve uma conversa legal com ele? Não, não teve. — ela voltou a olhar para televisão. — Ah, e obrigada pelo elogio do “eu gosto de pessoas como você e o ”. Se você não fosse uma menina, eu casava.